- Escrito por Lilian Russo
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Medicamentos em Xeque
Até que um medicamento seja lançado, ele costuma passar por três fases de pesquisa. Já no mercado, ele continua a ser monitorado. O objetivo é garantir a eficácia, claro, e a segurança da droga para as pessoas. Esse processo pode levar anos, mas, segundo um movimento que cresce no mundo todo, não é o suficiente.
Cientistas, médicos e observadores da área de saúde, principalmente na Europa e nos Estados Unidos, estão pressionando a
indústria farmacêutica e as agências de vigilância sanitária para que elas tornem públicos os relatórios dos testes dos medicamentos.
A ideia é que, de posse desses dados, pesquisadores independentes possam revisá-los para certificarem-se de que estão corretas as informações apresentadas pelas empresas às agências que aprovam os medicamentos. A preocupação tem procedência: é a indústria farmacêutica que financia e coordena os estudos clínicos, o que causa conflitos de interesse.
A pressão sobre a indústria se baseia em casos recentes de remédios retirados do mercado em razão dos riscos ou cuja eficácia foi contestada após novas análises dos estudos [leia tabela abaixo]. A publicação de revisões que sugerem a omissão dos dados também contribuiu. Um levantamento publicado pela agência do governo da Alemanha, chamada IQWiG, sugere que informações importantes são omitidas dos médicos e dos pacientes pelas empresas. Os alemães compararam os dados dos relatórios da indústria a artigos que haviam sido publicados em jornais científicos. Nessas publicações dirigidas a especialistas, os cientistas que fazem testes de novas moléculas para a indústria publicam os resultados mais importantes dos estudos, para divulgá-los. Segundo o levantamento da agência alemã, alguns dados relevantes ficaram de fora. Das 1.080 conclusões, apenas 39% haviam sido relatadas. Informações como a não remissão dos sintomas após o uso da medicação e o aparecimento de alguns efeitos colaterais não chegam ao conhecimento dos médicos e dos demais cientistas. E, portanto, dos pacientes.
A Agência Europeia de Medicamentos (EMA), que avalia novas drogas na União Europeia, divulgou pela primeira vez, em outubro do ano passado, os dossiês de medicamentos completos enviados pelas empresas farmacêuticas a partir de janeiro de 2015. Mas a maior parte dos medicamentos que já estão no mercado continua com seus dados fechados. No Brasil, a Associação da Indústria Farmacêutica de pesquisa (Interfarma), entidade que congrega multinacionais, manifestou-se, em novembro de 2015, na contramão dessa tendência. A entidade pede a criação de uma lei no Brasil que garanta um período de proteção aos dossiês de testes de medicamentos, sob o argumento de que há o risco de segredos industriais vazarem – o que colocaria em risco o desenvolvimento de novas drogas. Conheça a história de alguns medicamentos que foram retirados do mercado – ou que têm sua eficácia em xeque – em razão de novas análises.
Por MARCELA BUSCATO
Época