- Escrito por Lilian Russo
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Falhas éticas e inconsistência de dados invalidam estudo sobre o uso de células-tronco pós-infarto Destaque
A revista médica The BMJ anunciou a retratação de um artigo que apontava uma terapia com células-tronco como um “valioso procedimento” após o infarto na prevenção de insuficiência cardíaca. O paper recebeu o carimbo de inválido depois que uma coleção de inconsistências em seus dados foi apontada no PubPeer, site onde é possível postar críticas e anotações sobre artigo.
Uma delas foi um “padrão curioso de repetição” no conjunto de dados, com um alto contingente de números inteiros para a altura e o peso dos pacientes, o que sugere erro ou manipulação de informações. Também chamou a atenção a inclusão de participantes acima dos 65 anos, fora do critério de idade especificado.
Em uma correção anexada à retratação, dois dos 10 autores tiveram seus nomes removidos, ambos vinculados à Universidade Queen Mary de Londres, na Inglaterra (os demais são pesquisadores de universidades iranianas). Os cardiologistas Anthony Mathur e Sheik Dowlut alegaram que apenas forneceram “feedback sobre o manuscrito antes de seu envio” e que haviam pedido ao autor correspondente para não assinarem o artigo. Sobre um deles, Mathur, pesava um questionamento sobre conflito de interesses. Ele é um dos curadores da Heart Cells Foundation, patrocinadora de uma instituição, também administrada por ele, que fornece terapias com células-tronco para cardíacos.
Problemas no registro do estudo acenderam outro alerta. O protocolo que os autores submeteram a The BMJ indicava que ele ocorreu antes do recrutamento de pacientes, prática que garantiria transparência à pesquisa. Mas a data registrada no clinicaltrials.gov, banco de dados de ensaios clínicos, foi posterior.
Os autores alegaram que os problemas não foram intencionais e resultaram da integração de conjuntos de dados hospitalares. Eles forneceram um conjunto revisado, o que não impediu a retratação. Como o ensaio clínico ocorreu no Irã, o periódico solicitou à Administração de Alimentos e Medicamentos do país que avaliasse a origem dos equívocos e incoerências do artigo, mas não obteve retorno. Ao site Retraction Watch, a neuropsicóloga Dorothy Bishop, primeira a sinalizar problemas no estudo, explicou por que ficou apreensiva com o caso: “Existiam amplas evidências de que os dados não eram confiáveis havia cinco meses, e é preocupante que The BMJ não tenha retratado o artigo mais rapidamente, dadas as implicações para a segurança dos pacientes”. O estudo estava na fase III, etapa de confirmação da eficácia do tratamento.
Fonte: https://revistapesquisa.fapesp.br/colecao-de-problemas/