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Avanços permitem tratamentos oncológicos mais eficazes e menos agressivos

oncologicoPor décadas, o principal tratamento para a maioria dos tumores foi a quimioterapia. O coquetel de medicamentos, que surgiu durante a Segunda Guerra Mundial, gera resultados positivos em grande parte dos casos da doença, mas desanima os pacientes devido aos efeitos colaterais envolvidos. Graças ao avanço da ciência, essa opção não é mais a única saída para a luta contra os cânceres. Mapeamentos genéticos, radioterapia, crioterapia e medicamentos que impulsionam o sistema imune geram resultados positivos na

área oncológica ao reduzir custos e aumentar a qualidade de vida.

O mapeamento genético é uma das tecnologias mais exploradas na área médica e trouxe ganhos para diversas áreas, incluindo a oncologia. Com essa técnica, abordada durante o Workshop Latino-Americano sobre Oncologia de Precisão, realizado em Miami na semana passada, os cientistas conseguem identificar quais os genes envolvidos em cada tipo de tumor. Os especialistas explicam que, quando ocorre uma alteração genética, isso pode levar ao surgimento de mutações. Como resultado, as células doentes se proliferam e causam os tumores.

A identificação das proteínas responsáveis pelas variações nos genes permite aos cientistas testar moléculas que podem combatê-las. Um exemplo desses alvos é a quinase do receptor de tropomosina (TRK), substância que, ao se fundir com outros genes, provoca uma mutação chamada de NTRK, que leva ao surgimento de diversos tipos de cânceres sólidos, como pulmão, tireoide, cólon, cérebro e pâncreas.

Em fevereiro de 2018, um estudo publicado na revista The New England Journal of Medicine testou o uso da molécula larotrectinib para tratar pacientes com tumores que se caracterizam pela fusão de TRK. Usado em 55 pacientes, 75% deles apresentaram redução do câncer e 22% mostraram remissão total. Devido ao sucesso nos testes, o fármaco já foi aprovado pela agência reguladora de medicamentos norte-americana (FDA) e está em processo de avaliação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Alvos
Especialistas ressaltam que o uso de medicamentos que se baseiam na genética do tumor, e não apenas em onde ele está localizado, é um dos maiores avanços na área oncológica atualmente. “A chave para viver mais na oncologia é identificar um alvo e ter algo para combatê-lo. Essa medicina de precisão leva em conta principalmente a variabilidade individual”, detalha Gilberto Castro Júnior, médico do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), que esteve no workshop. “É preciso entender que o tratamento do tumor pode ser comparado a um sapato: não é o mesmo que serve para cada pessoa. Temos que encarar cada tumor de acordo com suas características, em cada indivíduo”, complementa.

Para Isabela Werneck Cunha, patologista cirúrgica da Rede D´Or, em São Paulo, o detalhamento genético permite utilizar ferramentas para diagnóstico e tratamentos que antes não eram cogitados dentro da área de pesquisa. “Nos últimos anos, nós tínhamos apenas o nome do tumor, hoje ele tem CPF, endereço e muito mais. Isso se deve a uma série de estudos que surgiram nos últimos anos, relacionados ao mapeamento genômico. Graças a ele, conseguimos identificar alvos como o TRK. Com os testes genéticos, também podemos definir se o tumor do paciente se encaixa em determinadas características e, dessa forma, é possível escolher a melhor forma de tratá-lo”, ressaltou a especialista, durante o evento.

A médica afirma que muitas outras alterações genéticas estão sendo estudadas, o que também abre as portas para novas moléculas que podem ser usadas como terapias. “A identificação das alterações nessas proteínas que estão relacionadas ao crescimento do tumor proporcionam novas alternativas terapêuticas de diversas origens. Um dos campos mais estudados atualmente, que podemos definir como tendência, são os anticorpos. Eles têm sido alvos de muitos estudos e podemos esperar grandes ganhos vindos dessa área”, diz
*A repórter viajou a convite da empresa Bayer Farmacêutica

“Nos últimos anos, nós tínhamos apenas o nome do tumor, hoje ele tem CPF, endereço e muito mais. Isso se deve a uma série de estudos que surgiram nos últimos anos, relacionados ao mapeamento genômico”
Isabela Werneck Cunha,patologista cirúrgica da Rede D´Or, em São Paulo

Um dos maiores objetivos buscados por cientistas que exploram novas opções para tratar o câncer é a redução de danos colaterais aos indivíduos acometidos por eles. Com esse propósito, um grupo de cientistas brasileiros realizou um experimento para avaliar o uso da braquiterapia, técnica usada para tratar pacientes com tumores de próstata. A tecnologia consiste na colocação de “sementes” radioativas por meio de agulhas guiadas por ultrassonografia e raio x no tumor.

O procedimento não cirúrgico dura cerca de 30 minutos e requer anestesia geral. “Cada método tem suas particularidades. No caso da braquiterapia, o benefício de ser realizada em apenas um dia é um diferencial”, explica João Luis Fernandes da Silva, diretor adjunto do Departamento de Radioterapia do Hospital Sírio-Libanês e um dos autores do estudo, publicado na revista International Brazilian Journal of Urology.

Os cientistas trataram 406 pacientes. Como resultado, eles observaram que as taxas de controle da doença foram de 90,6% e 82,2% em cinco e 10 anos, respectivamente. Apenas 6% dos pacientes apresentaram metástases em uma década e menos de 1% morreu de câncer de próstata. A pesquisa também demonstrou que apenas entre 0,5 e 3,6% dos pacientes apresentaram complicações relacionadas ao tratamento. Essa ausência de danos colaterais é um dos maiores ganhos da pesquisa, segundo os autores.

Sem queixas
“Essa técnica já é usada há alguns anos, mas queríamos checar se ela se mantém como uma boa opção para esse tipo de câncer. Manter uma vida saudável ao paciente é nossa prioridade, e isso foi possível. Não registramos queixas que são comuns. Tivemos taxas zero de letalidade, transfusão, infecção, desfecho clínico e acidentes anestésicos e também a ausência de registros de disfunção erétil”, frisa Silva. “Esse estudo é muito importante para oncologia brasileira, pois se trata de uma série com um número bastante expressivo de pacientes que foram acompanhados por longos anos”, ressalta.

O especialista acredita que os resultados positivos serão ainda maiores no futuro. “A radioterapia é um exemplo de tecnologia que tem se refinado e auxiliado a ampliar as chances de cura dos pacientes. Ainda usamos mais a cirurgia, porém, temos casos em que ela não é a mais indicada.”

Palavra de especialista
Bem-estar é prioridade
“Hoje em dia, o que buscamos cada vez mais com as pesquisas é aumentar as taxas de cura com o menor índice de efeito colateral possível. É o que ocorre com a radioterapia. Quanto menos sessões forem realizadas, maior é o bem-estar do paciente. A redução de sessões possibilita uma melhor qualidade de vida na rotina. Nesse sentido, acredito que a imunoterapia tem mudado muito os paradigmas, ela já contribui muito para essas mudanças. É realmente difícil dizer se a quimioterapia não vai ser mais usada, porém vemos que a imunoterapia tem preenchido lacunas que ela deixou em aberto, e isso é algo que merece destaque e que pode crescer no futuro, com o surgimento de mais avanços tecnológicos.”
Juliano Nakashima, especialista em radioterapia e médico da Clínica Vitta, em Brasília

Para saber mais
Gás de mostarda
O tratamento quimioterápico surgiu durante o início da Segunda Guerra Mundial. O gás de mostarda usado como uma arma química durante os combates causava a morte em poucos minutos devido à sua toxicidade. Em pesquisas médicas feitas com os soldados sobreviventes da época, cientistas constataram que o contato moderado com a substância gerava a diminuição de leucócitos no sistema linfático e na medula óssea, o que se mostrou um caminho promissor para o tratamento da leucemia. Em 1941, dois farmacêuticos americanos observaram em experimentos com ratos que o uso do gás reduziu uma série de linfomas em ratos. A primeira droga usada para o tratamento de tumores, a mecloretamina, foi desenvolvida pela dupla no ano seguinte para tratar linfoma de Hodgkin e leucemia.

Por Vilhena Soares
Correio Braziliense

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